
Durante muito tempo, a segurança no trabalho foi associada quase que exclusivamente a capacetes, EPIs e laudos técnicos de ambientes industriais. O Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) existia, mas vivia em uma gaveta que raramente o RH precisava abrir. Esse cenário mudou com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) e com a ampliação do escopo do que precisa ser gerenciado. Riscos psicossociais passaram a integrar formalmente o PGR, e o RH deixou de ser coadjuvante nesse processo para se tornar um dos principais responsáveis por ele.
Entender o que é o programa de gerenciamento de riscos (e o que ele exige na prática) é o ponto de partida para qualquer empresa que queira atuar com conformidade legal e, ao mesmo tempo, construir um ambiente de trabalho mais saudável.
Conforme definido pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) é o conjunto de ações coordenadas de prevenção que têm por objetivo garantir aos trabalhadores condições e ambientes de trabalho seguros e saudáveis. O PGR é a materialização desse processo (seja em documentos físicos ou em sistema eletrônico) e passou a ser exigível a partir de 3 de janeiro de 2022, com a entrada em vigor da nova NR-1.
Na estrutura mínima definida pela norma, o PGR precisa conter dois documentos: o Inventário de Riscos Ocupacionais, que compreende a identificação de perigos e a avaliação dos riscos presentes, e o Plano de Ação, que estabelece as medidas de prevenção a serem introduzidas, aprimoradas ou mantidas para eliminar, reduzir ou controlar esses riscos.
Ou seja: é necessário identificar o que pode causar dano, avaliar a gravidade e a probabilidade de ocorrência, agir sobre os fatores de risco e revisar o processo periodicamente.
O que mudou, nos últimos anos, é o entendimento de quais riscos precisam entrar nessa equação.
O PGR sempre abrangeu riscos físicos (ruído, calor, vibração), químicos (agentes tóxicos, poeiras) e biológicos (exposição a vírus, bactérias). Com a atualização da NR-1, os riscos psicossociais foram formalmente incorporados ao escopo do programa.
Isso significa que fatores como sobrecarga de trabalho, pressão excessiva por resultados, assédio moral, conflitos interpessoais, jornadas exaustivas e falta de autonomia precisam ser identificados, avaliados e gerenciados com a mesma estrutura aplicada a qualquer outro risco ocupacional.
A diferença entre esses dois grupos de risco está menos na gravidade potencial (estudos consolidados já associam fatores psicossociais a adoecimento físico e mental) e mais na forma de identificá-los e mensurá-los. Risco físico pode ser medido com um equipamento. Risco psicossocial precisa ser mapeado por meio de dados comportamentais, pesquisas, escuta ativa e análise de padrões organizacionais. É exatamente aí que o RH entra.
De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, todos os empregadores que mantenham trabalhadores sob regime CLT devem elaborar o PGR. Existem algumas exceções previstas na NR-1: o Microempreendedor Individual (MEI) está dispensado, assim como microempresas e empresas de pequeno porte enquadradas nos graus de risco 1 e 2 que, em levantamento preliminar, não identificarem exposição a agentes físicos, químicos ou biológicos e declararem as informações digitais exigidas pela norma.
Para os demais, o programa não é opcional. E, diferentemente de um projeto com começo, meio e fim, o PGR é um processo contínuo: deve acompanhar as atividades da empresa e refletir qualquer mudança no ambiente de trabalho que altere as características dos riscos. A avaliação de riscos precisa ser revista a cada dois anos. E, para algumas das situações previstas pela NR-1, isso pode ser necessário até mesmo antes, como nos casos de implementação de novas tecnologias, ocorrência de acidentes ou identificação de ineficácia das medidas de prevenção adotadas.
O PGR historicamente foi tratado como responsabilidade das áreas de Segurança do Trabalho e Medicina Ocupacional. Com a inclusão dos riscos psicossociais, essa responsabilidade se expande de forma natural para o RH, que é quem tem acesso aos dados de absenteísmo, afastamentos, rotatividade, pesquisas de clima e dinâmicas de liderança.
Mais do que contribuir com informações, o RH precisa assumir um papel ativo na construção e manutenção do programa. Alguns movimentos que fazem diferença nessa transição:
Ao participar ativamente do mapeamento de riscos, o RH tem acesso a dados que são insumos diretos para o Inventário de Riscos: taxas de afastamento por área, padrões de turnover, resultados de pesquisas de clima e relatos de escuta ativa. Esses dados precisam alimentar o PGR, não apenas relatórios internos.
Ignorar o PGR ou mantê-lo desatualizado não é apenas uma questão de inconformidade técnica. A fiscalização é conduzida pela Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, e empresas que não tenham o programa adequadamente estruturado estão sujeitas a multas e interdições.
Além do canal de fiscalização direta, há o risco de ações trabalhistas por dano moral ou dano existencial vinculadas a condições de trabalho. Com a NR-1 atualizada, fica mais difícil sustentar a tese de que a empresa desconhecia a existência dos fatores de risco, especialmente se ela não realizou o mapeamento que a norma exige.
Por outro lado, empresas que mantêm o PGR atualizado e documentado constroem um histórico de diligência que, em caso de questionamento, demonstra que a organização agiu preventivamente. Não é apenas uma proteção legal: é um indicativo de maturidade na gestão de pessoas.
A armadilha mais comum é tratar o PGR como uma caixa a ser marcada: elaborar o documento, arquivar e seguir em frente. Mas o que a norma exige, na prática, é uma rotina (de identificação, avaliação, ação e revisão) que precisa acompanhar a empresa ao longo do tempo.
Para o RH, isso representa uma oportunidade concreta de posicionamento estratégico. Quem lidera o processo de gestão de riscos psicossociais dentro do PGR tem acesso a informações que afetam diretamente as decisões sobre clima organizacional, estrutura de liderança, carga de trabalho e políticas de benefícios. O que começa como obrigação legal pode se transformar em uma das fontes de dados mais ricas para a tomada de decisão em gestão de pessoas.
O ponto de partida prático não é o documento. É a pergunta certa: quais são os grupos, funções ou ambientes da nossa empresa com maior exposição a fatores de risco? Responder isso com dados é o primeiro passo para construir um PGR que funcione de verdade.
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